Uma Vivência inesperada
Viver o choque cultural — e também o reverso — é sempre mergulhar em algo que a gente ainda não conhecia. Na minha última viagem ao Brasil e no retorno para cá, pude sentir na pele como essas vivências de viagem e a necessidade de se adaptar de novo tiram a gente totalmente da zona de conforto.
Passei quase 50 dias no Brasil. Foi um tempo intenso: estive com amigos e família, viajei para participar de congresso, visitei igrejas, reencontrei pessoas que não via há mais de 10 anos e recebi um verdadeiro “banho” de abraços que abasteceram minha alma. Tudo isto foi recheado de emoções positivas. Por outro lado, o choque negativo veio ao encarar a realidade social: os preços altos e o desemprego. Esses dois extremos trazem uma estranheza, um lugar emocional difícil de nomear.
Essa estranheza faz sentido quando olhamos para o que Craig Storti (2001) define como o desafio da reentrada: “muitas vezes esperamos que o lar permaneça igual, mas tanto nós quanto o lugar mudamos, o que torna o reencontro com nossa própria cultura um processo de descoberta muitas vezes desconfortável”. No meio disso, as despedidas são duras e as perguntas sobre o futuro ficam sem respostas. Saí de lá com a alma cheia, mas com o coração apertado.


Ao chegar na minha casa atual, entrei no que eu chamo de segundo choque reverso. De repente, me vi em uma casa silenciosa, sozinha, sem aqueles almoços e jantares cheios de conversa. Para completar: inverno, céu cinzento e muita chuva. Se a volta ao país natal já é um impacto, o retorno para o país de morada também o é. Por isso, nomeei essa experiência como um choque reverso duplo: primeiro, o choque de redescobrir minha terra natal; depois, o choque de se readaptar novamente à vida de expatriada, saindo da agitação brasileira para o silêncio da casa vazia, o frio e o ritmo diferente da Europa.
Essa diferença de intensidade me derrubou. Entrei em uma melancolia profunda, o corpo sentia o peso das emoções e meu sono desregulou. O que me ajudou a dar nome a isso foram duas experiências marcantes na igreja:
- Servir na igreja: Participei do Serve the City, ajudando a servir jantar para pessoas carentes. Levar o amor de Deus através do serviço me trouxe uma alegria que ajudou a espantar a melancolia.
- O teatro de Natal: Passei duas semanas costurando roupas para os personagens do teatro. Mais do que tecidos e modelos, o que valeu foram as “costuras na alma” que fizemos ao compartilhar nossas histórias enquanto trabalhávamos.
Foi nessas conversas que entendi que essa sensação de não se sentir plenamente em casa nem na origem, nem no destino, é o que Pollock e Van Reken (2009) descrevem como a vivência de quem habita um “mundo entre mundos“, onde a identidade é moldada por múltiplas culturas, gerando uma subjetividade muito própria.
Ao fazer estas constatações, o quebra-cabeça se fechou, as peças se encaixaram e a melancolia acabou. Tomei decisões para não cair de novo nesse buraco: decidi estar com pessoas mais frequência e me envolver em atividades presenciais. Viver esse período não é simples; é uma subjetividade muito concreta que mexe até com a nossa energia física e mental. Conseguir dar “nome e sobrenome” ao que sentimos é o primeiro passo para processar as emoções e buscar soluções.
Por isso, te convido a pensar: você já viveu algo assim? Não caminhe sozinho. Compartilhe sua experiência aqui nos comentários. Saber que outros multiculturais passam pelos mesmos desafios nos traz conforto.
Referências Bibliográficas (ABNT)
- ADLER, Nancy J. International Dimensions of Organizational Behavior. 5. ed. Mason: Cengage Learning, 2007.
- HOFSTEDE, Geert. Culturas e Organizações: compreender a nossa programação mental. Lisboa: Edições Sílabo, 2003.
- POLLOCK, David C.; VAN REKEN, Ruth E. Third Culture Kids: growing up among worlds. Rev. ed. London: Nicholas Brealey, 2009.
- STORTI, Craig. The Art of Coming Home. Boston: Nicholas Brealey Publishing, 2001.


